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Symbolon, diábolos e dialogus
Por Administrador
Publicado em 22/08/2025 18:49 • Atualizado 22/05/2026 13:32
Cidadania e política

 

Entre o symbolon que une e o diábolos que separa, o ser humano revela diariamente o próprio caráter. Palavras podem construir pontes ou alimentar divisões, mentiras e intolerância. Em tempos de radicalização, acusações e conflitos, o diálogo tornou-se raro — e urgente. O artigo mergulha na origem das palavras “símbolo”, “diabo” e “diálogo” para provocar uma reflexão profunda sobre fé, política, convivência e personalidade. Somos agentes de união ou de separação? Qual lado estamos escolhendo para construir o mundo?

Etimologia é o “campo de estudo da linguística que trata da história ou origem das palavras e da explicação do significado de palavras através da análise dos elementos que as constituem”.

 

Symbolon

Símbolo vem do grego súmbolon ou symbolon e significa “marca” ou “sinal”, “objeto partido ao meio” para servir de sinal de reconhecimento. Deriva de symballo, que significa “unir” ou “juntar”, em que o prefixo é syn e quer dizer “junto”, “mesmo”, e o verbo é ballo, “lançar”. A etimologia alude à ideia de um sinal que representa algo mais profundo ou abstrato, unindo ideias e pessoas.

 

Diábolos

Etimologistas ensinam que diabolus vem do latim e significa “entidade intrigante”, “demônio”. Alguns acreditam que o termo possa ter se originado do grego diábolos, caso em que significaria “acusador” ou “aquele que engana”.

O termo diábolos, por sua vez, teria origem em diaballein, que pode ser traduzido como “atacar falsamente”.

A palavra “diabo” entrou no dicionário da língua portuguesa através da forma latina diabolus, como sinônimo de “espírito da mentira” ou “entidade maligna”.

Diabo vem do grego diábolos, derivado de dia, “através de”, e ballein, “lançar”, “separar” ou “caluniar”; é o opositor, o agente separador, divisor, que se põe a afastar as pessoas umas das outras.

Povos e suas crenças, em geral e com suas peculiaridades, atribuem ao termo “diabo” a definição do mal e do mau.

 

Dialogus

Diálogo vem do latim dialogus, da raiz grega diálogos, formada por dia, “por intermédio de”, e logos, “palavra”.

Conversa seria sinônimo de diálogo, mas pode-se distinguir este daquela. Na conversa trocamos palavras sem compromisso, profundidade ou intenção solidária significativa. No diálogo avançamos e trocamos ideias, opiniões, intenções e necessidades com o propósito de chegar a um entendimento e acordo no qual cada um pode eventualmente ceder em parte para que todos ganhem. O diálogo exige o desenvolvimento da arte da escuta, cada vez mais rara e valiosa; então, da empatia, da tolerância e da compreensão. Não impõe gostar e concordar com tudo, mas propõe o respeito.

 

Diabólicos ou dialogadores?

Nas redes sociais e nas relações reais, esforço-me para ser cada vez menos diabólico e cada vez mais dialogador. E você?

Muita gente mais inteligente e capacitada do que eu segue na mesma empreitada. Entretanto, a impressão ou constatação é a de que gente assim é cada vez mais minoria ou até exceção. Será?

Estou falando de fé, religião e espiritualidade? Não; ou não somente. Entretanto, dos que se dizem crentes no transcendente, que oram ou rezam e falam com Deus, espera-se que sejam marca, sinal d’Ele no meio das demais pessoas; habitualmente agindo para juntar e unir e, ainda que se possa falar de abstração da fé, concretamente sendo agentes a promover união entre ideias e pessoas. Ou estou errado?

Então, por que tanta gente que diz e parece acreditar em Deus, por mais que disfarce e negue, com frequência apresenta comportamento enganador, acusador, separador, divisor, caluniador e mentiroso? E quantos gostam de julgar e condenar ateus e agnósticos... Que lhe parece?

 

Estou falando de caráter, temperamento e personalidade!

Com exceções, todos nós somos capazes de nos corrigir e melhorar. Conforme nos autoavaliemos, concluamos haver mais acertos que erros, decidamos mudar e nos esforcemos.

Tudo parte de algo tão claro quanto delicado, complexo e polêmico: o caráter que realmente possuímos, acompanhado do temperamento e da personalidade.

Em havendo retidão e equilíbrio, e num processo de formação correspondente, convergente e permanente, nossas percepções e opções políticas, religiosas e as demais não nos impedirão de conviver civilizadamente com as diferenças, os divergentes e os indiferentes, mesmo que, quantas vezes, com algum ou muito desgaste, desgosto e decepção.

 

Um exemplo

Num artigo escrevi: 

Estadistas têm projetos de governo e não de poder; agem pelo bem de todos e não pelo bem de si e de seus pares; pensam nas próximas gerações e não nas próximas eleições.

A democracia, a república e as instituições nunca foram tão atacadas e usadas por populistas, demagogos, carreiristas e oportunistas. Tiranos, ditadores e seus pares estão por todo lugar, frequentemente em nome de Deus. Vide o Brasil e o mundo agora.

Com a esperança de quem é compromissado, age e não apenas espera passivamente, que, com a nossa ajuda, dos bons políticos/estadistas, outros líderes e agentes, e de toda pessoa de real boa vontade, o Brasil, que já foi chamado de terceiro mundo e agora é dito em desenvolvimento ou emergente, um dia deixe de ser o país do futuro que nunca chega e seja, finalmente, desenvolvido!

A respeito, recebi alguns retornos (feedbacks):

Em geral, elogiosos e concordantes. Porém, previsivelmente, instituições e personagens da vida pública nacional e internacional oscilam entre ser, para uns, diábolos (populistas, demagogos, carreiristas e oportunistas) e, para outros, symbolon e dialogadores (bons políticos/estadistas, outros líderes e agentes, e toda pessoa de real boa vontade). Por que e como acontece essa total inversão?

O mesmo tratamento costumeiramente é dado a qualquer pessoa de quem não se gosta, com quem não se concorda, mesmo sem conhecê-la direito, seus motivos e propósitos, ou àquela que se inveja (o sentimento que ninguém admite...) etc.: seriam diábolos.

Também eu e você somos tidos por symbolon por uns ou diábolos por outros, que acertam ou erram acerca de suas percepções e conclusões a nosso respeito: e o que fazem com elas as suas consciências o sabem e lhes indicam se estão sendo diábolos ou symbolon. E isso está praticamente fora do nosso controle.

 

O que podemos controlar

Ante os fatos terríveis que abundam aqui e no mundo, claro que existem muitos diábolos que, incorrigíveis em seu mau caráter, impõem que a Justiça lhes destine o que seja de merecimento; e como é utópico esperar que a Justiça seja sempre efetiva e justa, e não seletiva…

E, pelo que se vê aqui e no mundo, como a alternativa será ou seria a barbárie, cabe o esforço para melhorar aos poucos, sendo e agindo como symbolon e dialogador: isto está sob o controle de quem se dispuser.

Seria ingenuidade, omissão, obtusidade, comodismo ou covardia? Ou é viável e única opção?

 

José Carlos de Oliveira

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