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“Só um minutinho, por favor!”
Por Administrador
Publicado em 23/10/2026 07:17 • Atualizado 23/10/2026 08:27
Mensagens e histórias

Publicado em 2015

Se a conversa o interessar, nascerá oportunidade para ele dizer: "Só um minutinho, por favor!" Tanto melhor se o assunto for política; mas, se for futebol, religião ou segurança, também servirá – qualquer assunto, afinal. E dará um jeito de estabelecer o que ou quem esteja certo ou errado, seja capaz ou não, razoável ou não, sendo esperado que ele se autodeclare o vencedor da pendenga, não importando quem tenha mais fundamentação em seus argumentos.

Os seus mais íntimos sabem que qualquer coisinha pode gerar novo embate. Quanto mais íntimos os envolvidos, mais acaloradas costumam ser as discussões. Desavisados poderão deduzir ser melhor limitar o contato a nada ou quase. Ledo engano.

Aqueles que desfrutam da sua amizade sabem que, quando escutarem "só um minutinho, por favor", ele falará, queiram ou não. Se, propositalmente, tardarem em atender ao pedido e o contrariarem, será para que mais lenha seja jogada ao fogo, fazendo proliferar suores, testas franzidas, lábios secos, vozes alteradas, gritos, respirações ofegantes, xingamentos e até despedidas truculentas para nunca mais – tudo entremeado por gargalhadas de uns.

Esses eventuais anúncios de despedidas definitivas foram e serão solenemente ignorados: prevalecem as amizades longevas, inquebrantáveis, admiráveis – tudo entremeado por gargalhadas de todos.

Ao longo do convívio com o habitual solicitante de "só um minutinho, por favor", vai-se aprendendo quais são seus defeitos ou características difíceis de aceitar ou de lidar. Essencialmente, qual ser humano não os tem?

E conhecem-se suas virtudes, destacando-se o bom humor, a propensão a ajudar, a tirar de si em favor de estranhos, dos verdadeiros amigos do peito e até dos "amigos da onça", aproveitadores de bolsos e corações alheios.

O habitual solicitante dos preciosos sessenta segundos é garantia de suporte amplo, geral e irrestrito: é um homem pequenino com coração gigante!

Especificamente neste dia 15 de fevereiro de 2015, pudéssemos nós, os seus amigos, acrescentaríamos dez segundos aos sessenta contidos no minuto que sempre exige da gente, numa singela e sincera homenagem ao digno, solidário e querido amigo.

Parabéns, Nilton Jovito Dietrich, pelos seus setenta anos!

 

Hoje eu estava para finalizar esta edição de outubro de 2026.

Era início de manhã, e o Niltinho partiu. Na semana em que se completa um ano da partida de um dos seus dois amados filhos – o Fabiano. Os dois se foram talvez por motivos evitáveis, mas "quem sou eu para julgar"?

Ele era referência de um grupo de amigos que foi naturalmente se formando e consolidando desde a juventude: hoje, a maioria é de avós ou bisavós, e os mais jovens que foram chegando estão cada vez mais grisalhos. De uns anos para cá, por exemplo, partiram o Maneco e o Ranulfo; e, semanas antes do Nilton, se foram o Amaris e o Monteiro.

Quantos seriam os amigos – todos chamados pelo Niltinho de "meu amigo particular"? Entre mais próximos e mais presentes, dezenas; considerando os demais, centenas. Pelas características, gostos e jornadas de cada qual, a convivência oscila, sem se encerrar ou fraquejar, mantidos o vínculo e o querer bem acima de qualquer dificuldade, distância e tempo.

Esposas, filhos e outros sempre foram bem-vindos, e alguns se tornaram íntimos. A presença de mulheres, crianças e pessoas públicas ou ainda não íntimas sempre impôs a redução das bobagens. Mas as bobagens jamais superaram a seriedade e a fraternidade.

Nos bastidores das atividades e conversas sérias, nunca surgiu um projeto de nome ou apelido para o grupo; e nem haveria por quê. Porém, no seio das inumeráveis e intermináveis conversas fiadas, de tempos em tempos, o Niltinho se referia a um suposto "clube dos mentirosos" e indicava alguém como presidente. O indicado da vez ria e lhe devolvia o cargo. Todos riam e sabiam que o Niltinho era o maior mentiroso da turma e, mesmo cientes de que sempre seriam vítimas das suas mentiras e      peraltices, confiavam nele!

Apesar dos incontáveis restaurantes e padarias para almoços e cafés memoráveis, e de outras casas e lugares, foi-se consolidando espontaneamente uma sede tão informal quanto referencial: Rua Antônio Meirelles Sobrinho, 1263. Acima, a casa dele e da dona Ivani; abaixo, salas comerciais e um salão.

Pela diferença de idade, não sou dos originais – cheguei depois –, mas todos foram me acolhendo com a fraternidade e o carinho de pais adotivos ou irmãos mais velhos. Especialmente a partir do começo dos anos 2000, quando passei a ter meu escritório/estúdio no mesmo endereço.

Muitos – inclusive prefeitos, governadores, deputados, vereadores, clérigos, artistas e outros agentes de destaque – frequentaram "nossa" sede ou ponto de referência, que continua lá com a querida dona Ivani. Com ela, papearemos, tomaremos café e daremos risadas relembrando causos absurdos e inesquecíveis: será um dos modos de alimentar o sentimento que nos une, agora acrescido da saudade do homenzinho teimoso, manhoso e amoroso. Entretanto, "daqui pra frente tudo vai ser diferente": ficamos todos órfãos daquele que mais papagaiava do que realizava, mas tinha o carisma de nos agregar, animar e conservar juntos.

Entre meus voluntariados, o primeiro e mais longevo consiste em interagir com solitários, depressivos, pessoas em risco de suicídio, enfermos e enlutados, com e sem conotação religiosa. No âmbito religioso, já realizei centenas de exéquias (celebrações e orações que se realizam com familiares e amigos do falecido, pouco antes do seu sepultamento).

Tive a responsabilidade de celebrar a passagem, ou páscoa, do "seo" Nilton, que tantas vezes me disse que me considerava seu filho. Sempre me entrego intensamente a tais ocasiões, e várias vezes estavam envolvidas pessoas muito queridas e amadas por mim. Quando alguém do nosso coração faz a sua passagem, leva consigo parte da gente. O Niltinho levou parte de mim e de muita gente. E deixou a si mesmo dentro de mim e de todos que lhe queriam bem: por todas as nossas vidas!

Se você o conheceu, mesmo que um pouco, entendeu o que acabo de escrever. Seja como for, você é querido e amado por uma porção de gente, e retribui. Alguns talvez já tenham partido e permaneçam no seu coração: curta e cuide bem dessas lembranças, amores e saudades.

Não descuide de desfrutar do carinho e do amor dos que continuam a vivenciar com você a brevidade da vida. Valha-se de telefonemas e chamadas de vídeo para interagir com quem está longe demais, e esforce-se para visitar e ser visitado, conforme possível. Nunca se acomode a telefonemas, áudios e vídeos, gravados ou ao vivo, com quem está na mesma cidade ou noutra não tão distante. Nenhuma tecnologia é melhor que abraços, apertos de mãos, beijos, conversas, choros e gargalhadas presenciais: qualquer que seja o cardápio sobre a mesa, o principal são sempre as pessoas ao redor dela.

 

José Carlos de Oliveira

 

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