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Política e princípios que sustentam a ordem social
No mundo ideal e no mundo real, política e politicagem não deveriam ser sinônimas!
Por Administrador
Publicado em 22/04/2026 11:29 • Atualizado 22/04/2026 11:39
Cidadania e política

Três pilares sustentam uma sociedade verdadeiramente justa: solidariedade, subsidiariedade e participação — mas poucos compreendem seu poder real. A solidariedade impede a indiferença; a subsidiariedade protege a autonomia; a participação dá voz e responsabilidade a todos. Quando esses princípios falham, surgem dependência, concentração de poder e apatia coletiva. A política, em sua essência, deveria ser a arte nobre de equilibrar interesses e construir o bem comum. Mas, na prática, muitas vezes é deformada pela politicagem — onde interesses pessoais sufocam valores. A  diferença entre ambas não está nas estruturas, mas no caráter de quem as exerce. Uma sociedade que aceita a mediocridade colhe injustiça, desigualdade e descrença. Enquanto isso, abusos de poder e narrativas distorcidas alimentam a divisão e a impunidade. Sem participação ativa, poucos decidem por muitos — e o coletivo se enfraquece. Não existem salvadores: a transformação começa no cidadão comum, em cada atitude diária. Exigir mais — de si e dos outros — é o primeiro passo para romper o ciclo. A escolha é inevitável: elevar a política ou continuar refém da omissão. 

 

Ao longo da história, as diversas sociedades desenvolveram princípios necessários para construir uma ordem social justa, estável e humana. Destaca-se a formulação com três pilares que se complementam e se equilibram mutuamente — solidariedade, subsidiariedade e participação: princípios que ajudam a orientar a organização da vida coletiva, das instituições e das relações entre indivíduos, comunidades e Estado.

 

Solidariedade: o reconhecimento da interdependência humana

Ninguém vive isolado; vivemos interdependentes uns dos outros: dependemos do trabalho, do conhecimento e do cuidado de inúmeras pessoas para viver com dignidade.

Os membros de uma sociedade devem reconhecer-se como corresponsáveis pelo bem comum. A prosperidade de alguns não pode ser construída à custa da exclusão, da exploração ou do sofrimento de outros. A solidariedade exige atenção especial aos mais vulneráveis e a construção de estruturas sociais que reduzam desigualdades e injustiças.

Solidariedade não é sentir compaixão de vez em quando; não é ação de autopromoção, de bajulação ou de outras intenções interesseiras: é um critério ético de organização social. Ela inspira políticas públicas, práticas institucionais e comportamentos individuais sinceros, focados na cooperação, na justiça social e na promoção da dignidade humana.

 

 Subsidiariedade: o respeito às competências de cada nível social

Se a solidariedade é responsabilidade mútua, a subsidiariedade trata da forma correta de distribuir responsabilidades dentro da sociedade.

Instâncias que estão acima não devem assumir o que as de baixo são capazes de realizar por si mesmas. Famílias, associações e organizações intermediárias possuem competências próprias que devem ser respeitadas, valorizadas e incentivadas.

Quando o poder superior ou central substitui indevidamente essas instâncias, surge ou cresce a burocracia, a dependência e a perda de iniciativa social; o oportunismo de uns e o servilismo de muitos. Quando as instâncias menores não possuem condições suficientes para agir, os níveis superiores de organização e instituição, especialmente o Estado, têm o dever de intervir e prestar apoio, para que se restabeleçam e continuem a caminhar com as próprias pernas, cada qual no âmbito de suas áreas de atuação.

A subsidiariedade busca manter um equilíbrio saudável: nem abandono social, nem centralização excessiva.

 

Participação: o envolvimento ativo na vida coletiva

O respeito aos direitos e às atribuições dos outros é inegociável; porém, as pessoas devem priorizar ser protagonistas, e não figurantes, das decisões e ações que afetam suas vidas.

Participar é ter voz, responsabilidade e influência nos processos sociais, políticos e econômicos. Envolve o exercício da cidadania política e o engajamento em organizações comunitárias, associações profissionais, iniciativas culturais e projetos coletivos.

A participação fortalece a democracia, amplia a legitimidade das instituições e contribui para decisões mais equilibradas, pois incorpora diferentes perspectivas e experiências.

Uma sociedade que limita ou impede a participação tende a concentrar poder e enfraquecer o senso de pertencimento coletivo. Já uma sociedade que estimula o envolvimento de seus membros cria condições mais favoráveis para a construção do bem comum.

 

Um sistema integrado de equilíbrio social

 A solidariedade impede que a sociedade se torne indiferente às injustiças.

A subsidiariedade protege a autonomia das pessoas e das comunidades.

A participação garante que todos possam contribuir para a construção do destino coletivo. Quanto mais esses três princípios atuam juntos, mais criam as bases para uma ordem social crescentemente justa, dinâmica e humana. Eles recordam que a vida em sociedade exige, simultaneamente, cooperação, respeito às responsabilidades próprias de cada nível social e compromisso ativo com o bem comum.

 

Cidadania e política

A cidadania é o exercício consciente e ativo de direitos e deveres.

A política institucional é a administração dos assuntos públicos.

Já a política — em sua plenitude — é o aprendizado e o exercício da boa e correta administração dos diversos interesses em favor da comunidade. Exige desenvolver as artes de dialogar e persuadir. Exige aprender a evitar ou reduzir conflitos, ceder e saber esperar para ganhar. Exige conviver harmoniosamente — sobretudo — com o contraditório e com outros modos de pensar, com equilíbrio, respeito e empatia no cotidiano comunitário. Exige fundamentação e formação permanente. As justas demandas coletivas têm prioridade sobre as demandas individuais. É preciso aprender a alcançar metas individuais justas como consequência do alcance de metas coletivas, participando ativamente, tanto quanto possível, no que for viável em cada questão, ocasião ou situação. Quem entende e age assim é o bom político que qualquer um espera — e cobra — que o outro seja; e que toda pessoa com bom caráter e boa formação é, ou pode vir a ser.

 

No mundo ideal e no mundo real, política e politicagem não deveriam ser sinônimas!

No mundo ideal, a política é expressão do bem comum — um exercício nobre de responsabilidade, diálogo e construção coletiva. É o espaço onde interesses legítimos se encontram, se equilibram e se transformam em decisões que promovem justiça, ordem e progresso. No mundo real, vê-se, de forma recorrente, sua distorção: a politicagem substitui princípios por conveniências e transforma o serviço em interesse próprio.

A diferença entre ambas não está na estrutura, mas na intenção. A política eleva; a politicagem corrompe. A primeira exige coragem moral; a segunda se alimenta da fraqueza ética. Enquanto uma constrói pontes, a outra cava abismos.

 

Prosopopeia para acalantar bovino? Utopia?

Uma sociedade que confunde política com politicagem — e isso é cultural no Brasil, em todos os setores e níveis — agiganta a desigualdade e a injustiça, apequena seu presente e abre mão do próprio futuro. Pode ser grandemente solidária — e há muitíssimos brasileiros solidários —, mas carece aprender e elevar ao patamar da excelência o princípio da participação; e ainda patina ou derrapa para compreender a subsidiariedade.

Esta, a partir da premissa da máxima liberdade com o mínimo de controle, promove o efetivo desenvolvimento das pessoas e das instituições intermediárias — entre cada indivíduo e o Estado (e nenhum de seus agentes está acima ou isento das mesmas obrigações inerentes a qualquer cidadão) —, para que todos exerçam bem e ao máximo suas responsabilidades.

Inumeráveis e intermináveis abusos de poder — político, judiciário, econômico, militar, religioso e midiático — se multiplicam e se entrelaçam. 

Alimentam-se de narrativas impregnadas de fundamentalismos beligerantes e separatistas, de sofismas e de ideologizações.

Como a corrupção e a impunidade grassam, consolidou-se e cresceu a percepção de que a Justiça costuma ser ágil e dura com uns e morosa e dócil com outros —  sendo, muitas vezes, inversamente proporcional e, portanto, injusta com ambos.

Assim, para muitos, tais ponderações são apenas prosopopeia para acalantar bovino (conversa para boi dormir) ou utopia (quimera, devaneio). Há quem lembre Rui Barbosa, há mais de cem anos:

“De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra; de tanto ver crescer a injustiça; de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto.”

 

Entre o que somos e o que escolhemos ser

A diferença entre política e politicagem não está nas instituições, nem nas leis, nem nos discursos — está nas pessoas. Está no caráter de quem participa e na consciência de quem escolhe; e na coragem de quem age e começa por si mesmo: não alguns, mas muitos — cada um no seu espaço, fazendo o que deve ser feito, como deve ser feito. 

Onde se tolera a mediocridade, ela governa. Onde se normaliza a corrupção, ela prospera. Onde se despreza a participação, poucos decidem por muitos. Uma sociedade não se transforma quando espera líderes ideais; transforma-se quando deixa de aceitar líderes medíocres. E isso começa quando cidadãos comuns recusam a omissão, elevam seus padrões e passam a exigir — de si e dos outros — o que a ordem social sempre exigiu: responsabilidade, coerência e compromisso real com o bem comum. É o que trouxe a humanidade até aqui e poderá dar a ela futuro. 

Os princípios da solidariedade, da subsidiariedade e da participação não são ideias abstratas: são critérios concretos que revelam, todos os dias, se estamos construindo uma sociedade digna — ou apenas mantendo uma aparência de ordem para uma realidade cheia de indiferença, vazia de justiça, onde se tolera e busca a conveniência e cada um luta apenas pelo que é seu.

Existem líderes e políticos excelentes em todos os níveis e áreas. Porém, não existe atalho e solução imediata ou definitiva para questões graves ou crônicas. Não existe “salvador da pátria”, “pai” ou “mãe” dos pobres. Não existe neutralidade e apatia sem custo.

Ou a política é resgatada e realizada como instrumento de elevação do bem comum — com lucidez, responsabilidade e firmeza moral — por cada vez mais pessoas — que ora lideram, ora são lideradas — ou continuará sendo geralmente deformada pela conveniência, pela omissão e pelo interesse próprio.

A escolha é inevitável. E ela não começa só “lá em cima”. Começa em cada consciência, em cada atitude, em cada decisão – e elas são inúmeras o dia todo. Todos os dias. Toda a vida!

 

José Carlos de Oliveira

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