Como começa um vício?
19/06/2024 18:47 em Cidadania e política

O que desencadeia um quadro de vício? Quais são os tipos mais comuns? O objetivo deste artigo é justamente romper com o estigma de que viciado é aquele usuário de drogas que perdeu o rumo.

Quando pensamos em “vício“, nossa mente tende a imaginar uma pessoa com dependência química, que teve a vida arruinada. O que normalmente deixamos de pensar é que os vícios podem estar relacionados a diversos fatores, não apenas ao álcool ou às drogas. Além disso, trata-se de um problema que pode estar presente em diversos contextos. Veja o que diz a psicóloga Maitê Hammoud sobre o tema.

 

O que caracteriza o vício?

 

O conceito de vício pode ser caracterizado como hábito ou costume persistente de fazer ou consumir algo, levando à dependência e fazendo com que seu consumo seja irresistível. O que diferencia o hábito do vício é que esse sempre oferece efeitos de risco, além de tornar-se recorrente e excessivo.

Outra característica do vício é a abstinência vivida na ausência do uso, podendo ser manifestada por angústia, apatia, sono, depressão, desorientação, delírios e, até mesmo, por alterações e dores físicas.

 

Tipos de vício

Antes de explicarmos como começa um vício, vale fundamentar alguns tipos de vício, permitindo uma compreensão mais ampla do conceito:

- dependência de sexo ou impulso sexual excessivo: vício em sexo normalmente associado a uma forte tendência à promiscuidade;

- adrenalina: estão buscando sempre atividades de risco ou esportes radicais nos quais exista a liberação e descarga de adrenalina;

- workaholics: viciados em trabalho;

- dependência tecnológica: viciados em internet, jogos digitais e celulares;

- ludopatia: viciados em jogos de azar;

- dependência de comida (food addiction): viciados em comida, sofrendo uma série de episódios de compulsão alimentar que podem levar à obesidade e outros problemas de saúde;

- tabagismo: viciados em cigarros;

- dependência química: viciados em álcool, drogas e outras substâncias (lícitas e ilícitas).

 

Como começa um vício?

O vício sempre está associado ao prazer ou recompensas, por isso, o viciado tende a buscar determinada substância ou comportamento almejando sensação de bem-estar, alívio, relaxamento ou, então, em busca de um funcionamento anormal de seu corpo, vencendo suas limitações físicas e psicológicas.

O vício se inicia quando se torna frequente a busca por tais elementos de prazer, caracterizando o aumento gradativo até chegar em níveis de consumo excessivo. Outro indício é quando se percebem sinais de abstinência, situações nas que há prejuízos emocionais ou físicos na ausência do consumo.

Alguns sinais podem ser indicativos de que você está se tornando um viciado:

- dificuldades no controle de seus impulsos, sentindo-se inquieto ou impotente por não recorrer ao comportamento ou substância;

- dificuldades em admitir que tem um problema de vício, mesmo sendo notável a relação de dependência que está sendo construída;

- todo gatilho tornar-se razão para buscar o elemento em questão;

- a frequência de uso começa a aumentar gradativamente, tornando-se parte de sua rotina.

Uma pessoa com vício em álcool, por exemplo, inicialmente pode se habituar a ingerir uma dose de whisky ou uma lata de cerveja para relaxar em dias estressantes, mas progressivamente aquele hábito se torna parte de seu dia. Outro exemplo é quando se inicia o consumo de álcool ou drogas para amenizar a tensão de dias tristes ou estressantes, mas, em dias felizes, também se recorre a esse gatilho para celebrar; logo, a presença do álcool ou drogas está ali tanto para alívio ou comemorações, como para dias tediosos. Em pouco tempo, qualquer dia torna-se propício para aquele gatilho, tornando o consumo diário.

 

Falando de substâncias lícitas

Um vício que pode ser altamente prejudicial à saúde e que costuma passar despercebido por muitas pessoas é o consumo de substâncias lícitas como analgésicos ou estimulantes. Uma pessoa pode recorrer diariamente a um analgésico para se livrar de dores de cabeça ou induzir o sono; ou então buscar drogas estimulantes (como substâncias próprias para emagrecimento ou TDAH) para aumentar sua produtividade em situações nas quais existe uma exigência maior de sua capacidade (elaboração de uma tese ou um projeto em seu trabalho).

Em casos assim, a pessoa logo sente que, ao não ingerir tal substância, não está produzindo como gostaria ou sente seu rendimento inferior, construindo uma relação de dependência.

 

As causas de todo vício

 

Consideramos que a causa de qualquer vício é biopsicossocial, ou seja, está ligada a fatores biológicos, psicológicos e sociais. Nos aspectos biológicos, podemos destacar as sensações de prazer estimuladas em nosso sistema nervoso e as falhas no controle de impulsos.

Nos aspectos psicológicos, podem se apresentar inúmeras emoções, mas normalmente um fator comum a todos os casos é a baixa autoestima, a qual faz com que a pessoa duvide de suas habilidades e também esteja sempre em busca de um preenchimento emocional.

A influência dos aspectos sociais é cientificamente comprovada na contração de qualquer vício. A pessoa, a partir de referências de amigos, familiares e até mesmo propagandas ou ídolos, estabelece um referencial de como lidar com dificuldades, encontrar prazer ou ser bem-sucedida.

 

Como tratar um quadro de vício?

Viciados estão sempre em busca daquilo que os satisfaçam, enquanto pessoas que não são viciadas são capazes de manter o equilíbrio mediante dificuldades, sejam elas sociais ou psicológicas.

Em função de os vícios envolverem muitos aspectos de nossa saúde, é indicado que o tratamento seja realizado por uma equipe multidisciplinar (psicólogo e psiquiatra). Além disso, é recomendável também que a pessoa seja inserida em grupos de autoajuda, o qual propicia compreensão e motivação.

 

Maitê Hammoud

Psicóloga Clínica, Formada pela Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU), com curso de aperfeiçoamento em Psicanálise pelo Instituto Sedes Sapientiae e aptidão para elaboração de laudos pelo curso de Neuropsicologia Forense do Instituto de Psiquiatria da USP (IPQ). Atendimento de adultos e terceira idade. Vivência clínica com violência doméstica, transtorno de personalidade borderline, transtorno de estresse pós-traumático, psicossomática, processo e elaboração de luto, depressão, ansiedade, relacionamentos interpessoais, drogas, entre outros - maitehammoud@hotmail.com.

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