A Bíblia tem história, geografia e literatura, mas não é livro de história, de geografia nem de literatura: seu propósito é a relação de Deus com a humanidade e da humanidade com Deus, com o próximo e com o mundo. Ler bem um texto milenar assim exige mais que boa vontade — exige contexto, método e humildade. Sem isso, o que se produz não é formação, é superstição; não é fundamentação, é fundamentalismo; não é discernimento, é achismo. Daí nascem os intransigentes de todos os lados, os autoproclamados donos da verdade e a velha tática de dividir as massas com o "nós contra eles" — em nome de Jesus, mas nunca conforme Jesus. Fé e oração vêm primeiro; estudo e formação são o que lhes dá base. João Paulo II comparou a fé e a razão a duas asas pelas quais o espírito humano se eleva à verdade: com uma asa só, ninguém voa. Este artigo é um convite a ler com atenção, pensar com honestidade e agir com coerência, equilíbrio, empatia e respeito — inclusive, e sobretudo, para com quem crê diferente ou não crê.
A Bíblia tem dados históricos verdadeiros (personagens, fatos e datas), mas não é um livro de história. Tem localidades geográficas que existiam no passado e que existem atualmente, mas não é um livro de geografia. Tem gêneros e estilos literários, mas não é um livro de mitos, histórias, romance ou literatura. Não é livro de ciência, como a antropologia, embora fale da origem do mundo e da humanidade. Entretanto, a interação de Deus com a humanidade é histórica, verdadeira e concreta, e a Bíblia tem como propósito oferecer verdades para a salvação: seu objetivo é falar do relacionamento de Deus com a humanidade, e da humanidade com Deus, com seus semelhantes e com o mundo.
É indispensável estudar e conhecer o Antigo Testamento para poder compreender o Novo e aprender a relação entre os dois. É preciso, primeiramente, saber que a Revelação bíblica está profundamente inserida na história, manifestando progressivamente o desígnio de Deus, agindo aos poucos e em fases sucessivas, apesar da resistência humana. Deus escolhe e, pacientemente, vai educando o Seu povo.
No Antigo Testamento, por exemplo, a pregação dos profetas é firme contra toda injustiça e violência, sendo instrumento da educação dada por Deus ao Seu povo como preparação para o Evangelho. Deus revela-se justo, e Sua justiça extrapola a justiça humana e gera consequências na vida do crente!
O Novo Testamento, ou Nova Aliança, atualiza e complementa o Antigo Testamento, ou Antiga Aliança. A Antiga é a promessa; a Nova é a sua realização. Jesus Cristo é a plena realização da Antiga e da Nova Aliança. O Novo Testamento é a interpretação do Antigo à luz do evento Jesus.
O que está registrado e o que está ensinado
A Revelação adapta-se ao nível cultural e moral de épocas antigas, ao modo de transmissão oral e depois escrita, com vários ajustes e acréscimos, muitas vezes bem posteriores, referindo-se a sentimentos, pensamentos, fatos e atos fraudulentos e violentos, sem denunciar explicitamente sua imoralidade. Isso se explica a partir do contexto histórico, mas leituras, formações e pregações tolas, superficiais, sectárias e interesseiras costumam enganar cristãos e não cristãos sem conhecimento e sem acompanhamento mínimo e adequado, sobretudo quando se desconsideram comportamentos negativos que as pessoas sempre tiveram e continuam tendo, a começar pela hipocrisia.
Seria errado desconsiderar as passagens bíblicas problemáticas; porém, é essencial desenvolver a "consciência de que a leitura destas páginas requer a aquisição de uma adequada competência, através duma formação que leia os textos no seu contexto histórico-literário e na perspectiva cristã, que tem como chave hermenêutica última [ou seja, interpretação] «o Evangelho e o mandamento novo de Jesus Cristo realizado no mistério pascal»" (Bento XVI, Verbum Domini, n. 42).
Como os cânones se formaram
Pesquisas constantes, novas descobertas e a tecnologia avançada contribuem para que teólogos, arqueólogos e outros especialistas e estudiosos avancem ainda mais no conhecimento da riquíssima história plurimilenar contida na Bíblia, para além do campo da fé e da religião. Esses pensadores e pesquisadores, cristãos ou não, ateus ou não, por vezes até discordam entre si e se opõem duramente; no entanto, os que se destacam também pelo caráter o fazem em alto nível: dialogam, respeitam-se em suas diferenças, caminham e avançam.
Eles sabem que a divisão gerada a partir do século XVI — e que impôs passar a chamar de católica a Bíblia que vigorava desde sua formatação nos primeiros séculos da era cristã, e de protestante a edição que passou a ser feita com a exclusão de alguns livros ou de partes deles — começou a gerar incontáveis outras divisões, incalculavelmente mais numerosas que as ocorridas anteriormente; e que é de um reducionismo deletério a troca de farpas entre defensores intransigentes, incultos ou mal-intencionados de um ou de outro cânone. Sabem, aliás, que a própria descrição do fato já divide: o que de um lado se entende como exclusão de livros, do outro se entende como retorno ao cânone hebraico — e quem pretende dialogar precisa, no mínimo, conhecer e enunciar corretamente a razão alheia antes de discordar dela. E o cânone ortodoxo? E o do judaísmo? Eles sabem que não são os únicos cânones bíblicos ou regras de fé, embora outros tenham sido, em geral, mais propostos que de fato usados. Aliás, desde antes de Cristo não por acaso se pode falar em judaísmos e, depois de Cristo, em cristianismos. Eles sabem que os autores dos livros que a Igreja viria a estudar, selecionar e chamar de Novo Testamento confiavam que os leitores já conheciam os livros que viriam a ser chamados de Antigo Testamento; e que, das cerca de 350 citações do Antigo Testamento contidas no Novo, aproximadamente 300 são tiradas da versão grega, chamada dos Setenta ou Septuaginta, amplamente adotada desde o início da Igreja que crescia e se organizava. Eles sabem que, nos primeiros séculos do Cristianismo, havia livros escritos e sendo escritos, mas ainda não a Bíblia propriamente dita. Eles sabem que o cânone judaico só se consolidou depois da morte e ressurreição de Jesus, num processo que se estendeu pelos séculos seguintes, e que o cânone cristão levou ainda mais tempo, com as primeiras listas correspondentes à atual aparecendo a partir do século IV. Foi preciso tempo, houve dificuldades e divergências; porém, para guardar o que é essencial para fazer memória e dar a conhecer Jesus, "Caminho, Verdade e Vida" (Jo 14,6), foi preciso um discernimento eclesial. Enfim, eles, os especialistas e estudiosos sérios e capazes, sabem que se deve interpretar a Bíblia em harmonia com a razão e com o conhecimento consistente que hoje é acessível a quem o queira.
Em vez de formação, superstição
É um equívoco primário querer que a Bíblia diga o que ela não diz e que se conforme a padrões atuais e locais, a conveniências pessoais e de pequenos grupos; valer-se somente de versículos e perícopes que soem agradáveis; ler o texto ao pé da letra; ignorar ou distorcer o contexto; negar fato científico comprovado usando fato bíblico — tanto pior se esse fato bíblico for mal interpretado; dar por certo e verdadeiro mais ou somente o que diz o pregador, escritor ou cantor que se admira, mais como fã dele ou dela e menos como fiel a Jesus e à Sua Igreja, sem se importar em saber se o indivíduo admirado ou idolatrado é verdadeiramente digno; com tanto conteúdo disponível, achar que basta orar e esperar que o — sem dúvida indispensável — Espírito Santo faça com que a pessoa que não estuda e não conhece o suficiente seja, sempre e indiscutivelmente, capaz de orar, pregar, ensinar e agir com elevado nível de qualidade, fidelidade e acerto; e, com todo o conteúdo disponível, ser suficientemente ingênuo e descuidado para não se esforçar por aprender a identificar e descartar o muito joio disfarçado e misturado ao verdadeiro trigo — ainda mais agora, em tempos de internet e de inteligência artificial explodindo em alcance e em capacidade, tanto para informar e formar quanto para enganar e alienar.
Mas, lamentavelmente, as pessoas, em grande parte, em pleno século XXI, a começar pelos cristãos, também quanto à fé, à religião e à espiritualidade, contentam-se com superficialidades ou não se percebem vítimas de conteúdos superados, tendenciosos, mentirosos e fanatizados: em livros, jornais, revistas, rádio, televisão e internet; nos balcões e salões, nos portões ou portas das casas e dentro delas. Em vez de formação, superstição; em vez de fundamentação, fundamentalismo; em vez de devoção, devocionismo; em vez de discernimento com embasamento, obtusidade e achismo. Até instituições de ensino são afetadas: umas, por carência de alunos dotados de melhor formação intelectual, moral e ética; outras, garantidoras de diplomas e certificados de conclusão de cursos fáceis de concluir, mas não necessariamente capazes ou interessadas em oferecer aprendizado significativo.
E assim se mantêm os que vivem a aprender e a ensinar com erros primários, não percebidos ou não admitidos. Isso também favorece a histórica e atualíssima existência de agentes cristãos mal formados, folgados e acomodados; e favorece a histórica e atualíssima excrescência dos autoproclamados missionários, apóstolos, profetas, bispos e tesoureiros de Deus, que não passam de fariseus e vendilhões piorados, espertalhões e charlatães, clérigos medíocres e de araque, dentre os quais os mais hábeis e mais hipócritas logo se tornam famosos, ricos e até milionários.
Dois milênios depois, tal como sempre foi, frequentemente, quem não crê ou crê diferente, em vez de ser amado, abraçado ou, no mínimo, respeitado, é tachado de errado, a ser convertido ou descartado e até amaldiçoado — e, quando isso envolve cristãos, em nome de Jesus, mas de jeito nenhum conforme Jesus. Também na fé e na religião a infame tática populista de dividir as massas, polarizando-as com o "nós contra eles", sempre foi utilizada e é atualíssima. Nas redes sociais virtuais e reais, flagra-se cada vez mais, mesmo entre pessoas de boa índole, a facilidade de regredir para atitudes rancorosas, raivosas e belicosas e a dificuldade de evoluir para atitudes pacientes, amorosas e conciliadoras ou pacificadoras. Enfim, prevalecem os reprováveis pensamentos, sentimentos e comportamentos registrados em textos da Bíblia, mas opostos à mensagem que ela contém e, principalmente, aos ensinamentos e ao testemunho dados por sua personagem central.
Fé e razão, juntas
Apesar de tudo isso, dos muitos equivocados e desonestos — enrustidos na Igreja, em todas as suas dissidências e nas dissidências destas —, protagonistas de erros e injustiças terríveis que a História registra; apesar da vergonhosa e contraditória realidade que afeta multidões dentre os que tentam, se acham ou fazem de conta ser cristãos, e dentre os seus críticos: existem milhões de cristãos e não cristãos sensatos e serenos, sendo majoritariamente mais piedosos que estudiosos e minoritariamente mais estudiosos que piedosos. A evolução e a disseminação da Igreja bimilenar de Cristo, cuja contribuição para o desenvolvimento da humanidade é marcante e irrefutável, foram e são possíveis graças a incontáveis pessoas de boa vontade, a maioria delas, aliás, anônimas.
Ainda que a fé e a oração sejam mais importantes que o estudo e a formação, estudo e formação são cada vez mais necessários para fundamentar a fé e a oração. João Paulo II abriu a encíclica Fides et ratio (1998) comparando a fé e a razão a duas asas pelas quais o espírito humano se eleva à contemplação da verdade. Com uma asa só ninguém voa: gira em círculos.
Portanto, ainda que isso equivalha a malhar em ferro frio e a nadar contra a correnteza, estudiosos, clérigos e leigos bem formados, honestos e equilibrados, valendo-se também da maravilhosa tecnologia e continuando eles mesmos a lidar com suas limitações e falhas e a se aperfeiçoar, devem perseverar em ajudar os interessados de boa-fé e boa vontade, cristãos ou não, que queiram aprender e aprofundar o fantástico conteúdo da Bíblia, corretamente, por meio de "uma leitura que leve a descobrir o seu significado à luz do mistério de Cristo".
Provérbios 31,26 diz, a respeito da mulher forte: "Fala com sabedoria e ensina com amor" (NVI).
Galileu, citando o cardeal Cesare Baronio, disse: "A Bíblia não nos diz como é o céu, mas como se vai ao céu".
Atribui-se a São Jerônimo, a respeito da Bíblia: "Na casca, fel; no miolo, mel" (in cortice fel, in medulla mel).
Santo Agostinho disse: "Creio para entender, entendo para crer".
Eu digo: seja conforme seu caráter; seu caráter seja conforme o de Jesus.
E Jesus disse: "Sem mim, nada podeis fazer" (Jo 15,5).
José Carlos de Oliveira
Com trechos compilados de:
A Bíblia: Salmos. São Paulo: Paulinas, 2017.
Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2002.
Bíblia — Tradução Ecumênica (TEB). 3. ed. São Paulo: Loyola, 2020.
BENTO XVI. Exortação Apostólica Pós-Sinodal Verbum Domini. São Paulo: Paulinas, 2010.
JOÃO PAULO II. Carta Encíclica Fides et ratio. São Paulo: Paulinas, 1998.
GONZAGA, Waldecir. Compêndio do Cânon Bíblico. Petrópolis/Rio de Janeiro: Vozes/Editora PUC-Rio, 2019.